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o perfume não tinha fim
e mesmo que o fim chegasse
ficariam vestígios nos ares
vestígios de nossa verdade
nada teria fim
o gosto do sorriso
a mão e os cabelos do menino
tua mão no meu corpo
o perfume vinha de dentro
o cheiro da bebida
misturado ao gosto da saliva
o cheiro do corpo
a expressão do teu rosto
o afago em meu cabelo
minha cor combinando
com teu sorriso
meu pensamento voando
o perfume vinha de dentro
na boca falando da arte
nosso corpo, uma parte
o perfume vinha de dentro
a surrealidade invadia meus pensamentos
tentei assimilar tudo que sentia
de dentro pra fora
e de fora pra dentro
tua canção encantava o ar
meu olhos devoravam as estrelas
tudo se transformou em verdade
a distância, a ausência
enfim, transformei-me em saudade..
Pequena.
Não sei onde chegar
quando partir
quando ficar
não sei o que sentir
quando pedir
quando doar
não sei o que dizer
quando gritar
quando calar
não sei o que fazer
quando agir
quando parar
dessa vida não sei mais
queria ter flores para te dar
florir meu ventre de teus desejos
das coisas de amor não sei mais
não sinto saudade do que passou
do que a chuva molhou
do que o vento levou
simplesmente não sei mais
já fui imensidão feito mar
já fui saudade, silêncio
hoje, só é preciso amar
Pequena.
meus dias
passando como um fio de navalha
cortando pensamentos bons e maus
cortando minha pele quando lembra da tua
cortando meu coração quando sente sua falta
meus dias
passando como um menino em fuga
correndo pra ver a caravana passar
correndo pra ver se a vida muda
e muda, no silêncio pra ver se a vida pára
meus dias
passando como as fome dos meninos
faminto pra ver a dor se esvair
faminto pra ver o sol todo dia
aflito, pra ver o fim do carnaval
meus dias
refletindo a cor de teus cabelos
refletindo a dor que destina em doer mais
refletindo a condição inumana de todos nós
meus dias
calados pela violência das palavras
inertes pela violência dos movimentos
sinestésico pela violência dos sentidos
ausente pela violência da presença
úmido pela violência da seca
meus dias
pelo vento passando
pelo sol queimando
teu corpo
pela seca, secando
teu rosto
pela presença em mim
teu corpo
Pequena.
das estrelas vejo a terra ao longe...
nenhum lugar para se segurar
nenhum lugar para se plantar sonhos
nenhum lugar para se colher sinceridades
da terra vejo as estrelas ao longe...
nenhuma galáxia para mergulhar
nenhum planeta para guardar meus segredos
ninguém pra seguir comigo
dividir minhas alegrias
acabar com o medo
quero um planeta só meu
uma estrela que possa brilhar a noite
quando minha alegria adormece
quero um instante só meu
pra adormecer tristezas
quando meu dia amanhece
quero um cometa só meu
pra me levar vida a fora
cativar amigos
e nunca mais ir embora
quero um mundo só meu
onde existam apenas
as estrelas
os sonhos
as galáxias
mais ninguém
e nem eu
Pequena.
é preciso coragem marinheiro
abandonar teu cais de angústia
e solidão de dias frios
e de toda imensidão
ancorar em tuas artes
sem ter medo ou desilusão
é preciso coragem
abandonar as luzes do teatro
os dramas da arte
o primeiro e
o segundo ato
seguir viagem
é preciso coragem
correr riscos
pular muros
pular precipícios
de qualquer janela
do mais alto edifício
é preciso coragem
correr atrás do sonho perdido
fugir de mocinhas
fugir de bandidos
é preciso coragem
distribuir a arte
por toda parte
nos muros-desfiles
da fétida cidade
é preciso coragem
ser sonho
ser vida
ser arte...
p.s dedicado ao amigo Fil.
Pequena.